Do tom sem tom da minha pele.
Eu juro que já fui morena um dia.
Quando eu era pequena, transformava qualquer ida à praia num evento. Sofria por antecedência na noite anterior com medo de chuva, de ressaca, de mormaço ou de muito sol (é, minha mãe sempre foi fresca pra isso e aturar a areia já era de-más pra cabecita dela). Saber que dependia da boa vontade do clima (tão cheio de personalidade!) pra realizar meu maior desejo era sempre uma agonia. Nunca gostei desse negócio de depender da caridade dos outros. Chato, né? Porém, fosse pra dar uma aliviada no nosso desespero ou sossego às manhãs de Dona Elisa, sempre moramos em prédio com piscina, onde, portanto, eu tratava de passar 80% do tempo das férias.
Esse pequeno grande problema se resolvia a cada 15 dias, quando meu pai carregava a gente naquela carroça despencando até Arraial do Cabo, que, segundo a placa ridícula que tem na entrada da favela-bairro que é aquela cidade, é onde o sol passa o inverno. A placa é cafona até não mais poder, mas faz jus ao clima da minicidade que dá praia 366 dias por ano. A benevolência solar somada à negligência educacional do meu pai eram sinônimo de paraíso!! Comia o que queria, dormia a hora que queria, acordava a hora que queria e, pro verdadeiro alívio da minha irmã, tomava banho quando queria (e se...). E, como não podia deixar de ser, era praia o dia inteiro!! Eu, que sempre fui uma criança gordinha e desengonçada pra qualquer tipo de atividade física, me despia da pouca vergonha que ainda me restava naquela época e realizava ali um ritual de um prazer tamanho que só conheci novemente mais velha e em outras circunstâncias... Rolava na areia, pegava jacaré, levava caixote (Deus há de saber como se escreve isso!), ficava com o biquini cheio de areia e que parecia outra coisa... Uma beleza! Saía do final de semana já ansiando pelo próximo!!
Passada essa fase, veio o tal do vôlei de praia. Puta que pariu, faltou alguém pra me dizer que tava no lugar errado! Eu sou baixa, gordinha, lenta, preguiçosa... o perfil ideal pra uma jogadora! E ainda por cima sem a menor capacidade de me impulsionar naquela merda de areia, o que tornava minhas cortadas mais maravilhosas nas cenas mais grotescas que o ser humano já viu. Mas eu adoraaaaaava! E como que num princípio de aprendizagem baseado na repetição (mesmo que do erro), eu até que conseguia jogar. Nessa de treinar treinar treinar pra um dia (quem sabe?) conseguir sacar por cima, eu ficava na praia dia e noite! Bonito era ver chegar o verão e eu e a Macaca (ela será devidamente apresentada posteriormente) pretas que nem jambo, tudo com a marca da regata e do shortinho...
Verdade é que o tempo passou e como que num piscar de olhos fiquei mais rabugenta, mais preguiçosa e mais ocupada, além de ter me mudado prum subúrbio, que fica longe da praia pra dedéu! E bronze que é bom, nécas! Fica tudo alvo como a neve e quem olha nem diz que a aquela pele ali já teve marca de biquíni. Só quem tá orgulhosa é a minha dermatologista, que acha lindo esse negócio de pele branca cheia de protetor fator 32573517387! Enquanto isso eu rezo pra fazer sol no dia que a virilha estiver depilada, Luciana estiver com bom humor (eu juro que é difícil) e eu acordar cheia de disposição pra andar de ônibus ou com os pés alados (que é pra chegar na praia em segundos) numa tentativa de tirar a palidez mórbida até o reveillon (que eu não sei que idiota inventou que todo mundo tem que usar branco, pra ficar tudo ton sur ton!).
Mas eu juro que já fui morena um dia.
OBS: resolvi recolocar o primeiro texto porque algumas pessoas não conseguiram lê-lo.
Eu juro que já fui morena um dia.
Quando eu era pequena, transformava qualquer ida à praia num evento. Sofria por antecedência na noite anterior com medo de chuva, de ressaca, de mormaço ou de muito sol (é, minha mãe sempre foi fresca pra isso e aturar a areia já era de-más pra cabecita dela). Saber que dependia da boa vontade do clima (tão cheio de personalidade!) pra realizar meu maior desejo era sempre uma agonia. Nunca gostei desse negócio de depender da caridade dos outros. Chato, né? Porém, fosse pra dar uma aliviada no nosso desespero ou sossego às manhãs de Dona Elisa, sempre moramos em prédio com piscina, onde, portanto, eu tratava de passar 80% do tempo das férias.
Esse pequeno grande problema se resolvia a cada 15 dias, quando meu pai carregava a gente naquela carroça despencando até Arraial do Cabo, que, segundo a placa ridícula que tem na entrada da favela-bairro que é aquela cidade, é onde o sol passa o inverno. A placa é cafona até não mais poder, mas faz jus ao clima da minicidade que dá praia 366 dias por ano. A benevolência solar somada à negligência educacional do meu pai eram sinônimo de paraíso!! Comia o que queria, dormia a hora que queria, acordava a hora que queria e, pro verdadeiro alívio da minha irmã, tomava banho quando queria (e se...). E, como não podia deixar de ser, era praia o dia inteiro!! Eu, que sempre fui uma criança gordinha e desengonçada pra qualquer tipo de atividade física, me despia da pouca vergonha que ainda me restava naquela época e realizava ali um ritual de um prazer tamanho que só conheci novemente mais velha e em outras circunstâncias... Rolava na areia, pegava jacaré, levava caixote (Deus há de saber como se escreve isso!), ficava com o biquini cheio de areia e que parecia outra coisa... Uma beleza! Saía do final de semana já ansiando pelo próximo!!
Passada essa fase, veio o tal do vôlei de praia. Puta que pariu, faltou alguém pra me dizer que tava no lugar errado! Eu sou baixa, gordinha, lenta, preguiçosa... o perfil ideal pra uma jogadora! E ainda por cima sem a menor capacidade de me impulsionar naquela merda de areia, o que tornava minhas cortadas mais maravilhosas nas cenas mais grotescas que o ser humano já viu. Mas eu adoraaaaaava! E como que num princípio de aprendizagem baseado na repetição (mesmo que do erro), eu até que conseguia jogar. Nessa de treinar treinar treinar pra um dia (quem sabe?) conseguir sacar por cima, eu ficava na praia dia e noite! Bonito era ver chegar o verão e eu e a Macaca (ela será devidamente apresentada posteriormente) pretas que nem jambo, tudo com a marca da regata e do shortinho...
Verdade é que o tempo passou e como que num piscar de olhos fiquei mais rabugenta, mais preguiçosa e mais ocupada, além de ter me mudado prum subúrbio, que fica longe da praia pra dedéu! E bronze que é bom, nécas! Fica tudo alvo como a neve e quem olha nem diz que a aquela pele ali já teve marca de biquíni. Só quem tá orgulhosa é a minha dermatologista, que acha lindo esse negócio de pele branca cheia de protetor fator 32573517387! Enquanto isso eu rezo pra fazer sol no dia que a virilha estiver depilada, Luciana estiver com bom humor (eu juro que é difícil) e eu acordar cheia de disposição pra andar de ônibus ou com os pés alados (que é pra chegar na praia em segundos) numa tentativa de tirar a palidez mórbida até o reveillon (que eu não sei que idiota inventou que todo mundo tem que usar branco, pra ficar tudo ton sur ton!).
Mas eu juro que já fui morena um dia.
OBS: resolvi recolocar o primeiro texto porque algumas pessoas não conseguiram lê-lo.

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